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Mestre Irineu Serra

 

Mestre Irineu Serra

Raimundo Irineu Serra, (São Vicente Ferrer, 15 de dezembro de 1892 — 6 de julho de 1971), mais conhecido como Mestre Irineu, foi o fundador da doutrina religiosa do Santo Daime que usa como sacramento a bebida chamada ayahuasca, batizada por ele de Daime, associada a orações e cânticos (hinos) a diversas divindades, caracterizando um culto resultante da mistura de diversas religiões e crenças indígenas, africanas e européias, predominam, no entanto, o Deus Pai, Jesus Cristo e Nossa Senhora, e os adeptos da doutrina a consideram uma doutrina cristã. Tem também grande influência do espiritismo.

 

 

 

Biografia

Mestre Irineu era filho do ex-escravo Sancho Martino e Joana Assunção, chegou ao estado do Acre com vinte anos, negro de alta estatura, integrando o movimento migratório da extração do látex em seringais.

Em 1912 vai para Manaus, no Porto de Xapuri, onde reside por dois anos, indo trabalhar posteriormente nos seringais da Brasiléia durante três anos e, em seguida, em Sena Madureira, onde residiu por mais três anos.

De volta a Rio Branco, foi para a Guarda territorial, até chegar ao posto de Cabo, e em seguida participou e passou no concurso para integrar a Comissão de Limites, entidade do Governo Federal que delimitava as fronteiras entre Acre, Bolívia e Peru, órgão este, comandado pelo Marechal Rondon. E foi o próprio Rondon que nomeou Irineu Tesoureiro da Tropa, um cargo de confiança.
Posteriormente retornou à floresta, de volta ao seringal, conheceu aquele que tornou-se um grande amigo: Antonio Costa.

A doutrina da floresta

Foi por meio de Antônio Costa que Irineu foi apresentado ao xamã peruano de nome Pisango, que realizava trabalhos com um chá de nome ayahuasca.

Não há muitos documentos que possam atestar a veracidade de muitos acontecimentos ligados a Raimundo Irineu Serra. Boa parte do conhecimento que se tem sobre a origem do Santo Daime e a vida de mestre Irineu foi passado por meio da tradição oral pelos mais antigos seguidores de sua doutrina.
O relato que segue abaixo é contado por muitos seguidores de Raimundo Irineu, também foi registrado no livro “Nosso Senhor Aparecido na Floresta” escrito pelo Daimista Lúcio Mortimer.

“Conta-se que quando foi convidado para tomar o chá, Irineu pensou:

Bom eu vou tomar, se for coisa que me agrade, que me sirva, que dê nome ao homem, se for coisa de Deus, eu prometo levar para o meus amigos….

Participando da sessão, ao tomar a bebida, percebeu uma sensação diferente, um estremecimento interno, uma força estranha e viu um enorme brilho no local.

Um dos participantes, evocou o demônio para ganhar dinheiro, mas, ao invés de Irineu ver demônios, como afirmavam os caboclos, ele só viu a cruz cristã de várias formas diferentes, uma cruz que percorreria o mundo inteiro. E percebeu, que a bebida o conectava com Deus.
Ao terminar a sessão, que contava com 12 pessoas, Dom Pisango exclamou:

‘Só Raimundo Irineu entendeu esse trabalho e é quem tem a condição de levá-lo para frente. O resto vive iludido e só pensa em dinheiro.’

Ao amanhecer do dia Antonio fala a Irineu, sobre os componentes da bebida : um cipó e uma folha.

No dia seguinte, quando Irineu trabalhava na extração do látex no seringal, viu os raios do Sol, iluminando um grosso cipó, que sentiu ser o mesmo da bebida. E, perto de um igarapé onde costumava tomar água, viu um arbusto com frutinhas vermelhas, igual ao descrito por Antonio. Ao levá-lo até os locais, constatou-se tratar das duas espécies vegetais mágicas: o cipó jagube e a folha chacrona.

Ao aprender o preparo, combinou com Antonio de juntos prepararem e tomarem a bebida, porém no dia marcado, Antonio não pode comparecer, e Irineu sozinho preparou três litros da bebida e a guardou para tomar junto com o amigo.

Combinaram numa Lua crescente, ambos tomaram e sentiram a força da manifestação vegetal acompanhada de visões. Antonio contou a Irineu, que na sua visão, apareceu-lhe uma Linda Senhora, chamada Clara. Disse a Irineu que ela o protegia, desde a sua saída do Maranhão.

Após essa vivência, combinaram um novo encontro para a Lua Cheia, sábado seguinte. Nessa noite de Lua Cheia tomaram a bebida numa caneca grande. Irineu, após meia hora, sentiu náuseas e foi vomitar.

Aliviado, olhou para a Lua Cheia, e a viu aproximar-se dele, com todo o seu brilho resplandecente e prateado. Dentro da Lua, viu uma Senhora, de beleza incomparável, sentada num trono, que lhe disse :
‘Você está escolhido para uma importante missão, mas para isso deverá alimentar-se por oito dias apenas de mandioca cozida, sem sal, abster-se de sexo e álcool, para que nos encontremos novamente.’

Após a dieta, ao tomar novamente a bebida, a visão da mulher apareceu novamente.

Apresentou-se como a Rainha da Floresta, que Irineu compreendeu ser a própria Nossa Senhora da Conceição, a Padroeira da Doutrina Santo Daime, que lhe entregou o Império Juramidam (Jura = Deus e Midam = Filho).

Foi assim, que em 1930 fundou a doutrina e tornou-se Mestre Irineu.”

O Sr. Luis Mendes, contemporâneo do Mestre Irineu, conta que numa das aparições da Rainha da Floresta, ela disse que lhe ensinaria a preparar uma série de garrafadas, para vários tipos de doenças, e o Mestre lhe suplicou :

Mas, Minha Senhora ! Não dá para colocar os poderes de cura das ervas juntos nessa bebida ?

Por essa razão, seus seguidores acreditam que a bebida possa fazer curas espirituais e físicas naqueles que a ingerir.

Alguns anos depois, Raimundo Irineu Serra foi para a cidade de Rio Branco, onde começou a trabalhar com um pequeno círculo de discípulos. A fama de curador do Mestre Irineu espalhou-se pela cidade do Rio Branco, era procurado por pessoas das mais diversas condições sociais e culturais. Foi filiado ao Centro da Comunhão do Pensamento, onde recebeu honrarias, e também filiado à antiga Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis.

Por fim, Mestre Irineu instalou-se, definitivamente, com sua família e um grupo de seguidores na localidade denominada Alto Santo, onde trabalhou até falecer, ou “fazer sua passagem”, como costumam dizer seus seguidores, em 6 de julho de 1971.

Para os seguidores das diversas linhas do Santo Daime, Mestre Irineu ainda realiza curas, pois deixou suas mensagens canalizadas através de um conjunto de hinos (hinário) os quais acredita-se que foram inspirados pela Rainha da Floresta e outros seres divinos. Essas músicas são consideradas “canções de poder” que transmitem com uma linguagem simples e poética cabocla, os ensinamentos bíblicos.